Valorização de Serviços Ambientais de Agro-Ecossistemas em Áreas Protegidas

O sistema agro-silvo-pastoril (SASP)

terraces

As práticas agroflorestais moldaram a paisagem atual da Serra da Estrela e ainda constituem uma componente decisiva na economia da região. A região mediterrânea caracteriza-se pela variação bioclimática associada a padrões de precipitação incertos, o que levou à adoção de práticas agrícolas diversificadas como estratégia de adaptativa e de resiliência (Castro 2009). No caso da Serra da Estrela, as elevadas variações anuais de temperatura, i.e. longos e frios invernos (com queda de neve) e verões curtos e quentes, juntamente com a acidez dos solos graníticos e xistosos, impuseram limitações consideráveis à capacidade agrícola da região. Foi, precisamente, no quadro destas circunstâncias, que os SASP se desenvolveram enquanto resposta humana à imprevisibilidade do clima e pobreza dos solos. Ao longo do tempo, as práticas silvo- pastoris influenciaram profundamente a configuração da paisagem, tendo levado ao desaparecimento da vegetação natural. No entanto, para Castro (2004), não se tratou de uma ação unívoca, sendo que as condições ecológicas também contribuíram para modelar o carácter da população autóctone e, assim, condicionar a sua ação criativa e propensão adaptativa. Nesta perspetiva, os SASP podem ser assumidos como o resultado de um processo co-evolucionário entre humanos e ambiente.

De modo a entender e descrever a diversidade de fins dos SASP não basta considerar apenas a variedade de funções inscritas em cada tipo de uso da terra. Tendo em conta a complexidade e cariz sistémico dos SASP, estes só podem ser compreendidos se tiver em conta as múltiplas interações entre as respetivas sequências espaciais (Étienne & INRA 1996). No caso dos SASP da Serra da Estrela, estes podem ser descritos a partir da interação entre três principais sequências espaciais: floresta, zonas de pastagem e zonas de cultivo. O cultivo de cereais e de leguminosas constituem atividades que exigem trabalho intensivo, logo, as respetivas áreas de produção tendem a localizar-se na proximidade das habitações e dos povoados. Já a preparação das áreas de pastagem e a atividade florestal envolvem um tipo de trabalho menos intensivo. Jansen (2008) divide estas sequências espaciais de acordo com a proximidade aos locais de assentamento humano, daí resultando duas situações: infields (terras de cultivo) e outfields (floresta e pastagem). Esta compartimentação não é estanque, antes pelo contrário, implica uma fluidez entre os espaços florestais e os espaços de cultivo: as pastagens asseguram alimento para os animais e estes produzem fertilizante necessário à regeneração da própria pastagem e à produção agrícola nos terrenos de cultivo (Castro 2009); as florestas proporcionam lenha e alimentos1, ao mesmo tempo que asseguram material orgânico empregue no estabular dos animais (daí resultando mais fertilizantes (Soto-Fernández 2006). De assinalar, também, as interações entre floresta e animais domésticos – a floresta proporciona abrigo para o gado e os materiais resultantes do abate e podas de árvores (por exemplo, dos castanheiros) servem de alimento ao gado (Russo 1996; Castro 2009). Os animais, por sua vez, através da pastagem, fertilizam os solos florestais e exercem uma ação de desbastação florestal (Castro 2004).

Horticultura perto da aldeia de Videmonte

Desde a primeira metade do século XX que se assistiu ao cultivo na região de pinhal e eucaliptal, espécies que interferiram nos SASP tradicionais (Jansen 2008). Estas plantações produziram um efeito homogeneizador da paisagem e precipitaram os riscos de incêndio (Direção Regional de Agricultura da Beira Interior 2002); ao mesmo tempo que, nalguns contextos, como foi o caso dos planos de florestação do Estado Novo, a população local viu-se impedida de continuar a aproveitar os recursos florestais, tendo-lhe sido vedado o acesso às novas áreas florestadas.

A emigração e a interferência de novas forças de mercado na região transformaram o papel dos SASP da Serra da Estrela. Jansen (2008) defende que os usos tradicionais tenderão a desaparecer e, com eles, as paisagens culturais; a não ser que se providenciem incentivos e implementem projetos e políticas a partir do Estado. A acontecerem, pode-se proporcionar uma oportunidade para a mobilização da população local para a preservação da paisagem e conservação dos valores naturais.

Salgueiro de Baixo

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